Emiliano Di Cavalcanti, retrato de 1964. Fotografia do Fundo Correio da Manhã, acervo do Arquivo Nacional. Versão restaurada disponível no Wikimedia Commons; imagem identificada como domínio público.
Algumas despedidas não encerram nada. Apenas mudam a maneira como uma lembrança passa a morar dentro da gente.
Na Pinacoteca de São Paulo, o dia 29 de janeiro de 2018 marcou o encerramento da exposição No subúrbio da modernidade ~ Di Cavalcanti 120 anos. inaugurada em 2 de setembro de 2017, no mês em que se comemoraram os 120 anos de nascimento do artista, a mostra reuniu mais de 200 obras de Emiliano Di Cavalcanti, entre pinturas, desenhos e ilustrações, percorrendo quase seis décadas de sua trajetória.
Era muita vida reunida em paredes. Mulheres, trabalhadores, músicos, festas populares, morros, ruas e rostos que pareciam carregar, cada um à sua maneira, um pedaço do Brasil. Um país de contrastes, de cores intensas e de gente que nem sempre aparece nos retratos oficiais da história.
Di Cavalcanti foi um dos nomes fundamentais do modernismo brasileiro. Sua arte ajudou a olhar o Brasil sem pedir licença aos padrões importados, trazendo para a tela a sensualidade, a cultura popular e as contradições de uma sociedade que ainda tentava descobrir o próprio rosto.
A exposição também lembrava que a modernidade não acontece apenas nos salões elegantes, nem pertence exclusivamente aos que escrevem os livros de história. Ela pulsa nos subúrbios, nas rodas de samba, nos encontros, nos amores e nas pequenas tragédias cotidianas. Está onde a vida acontece, mesmo quando ninguém parece prestar atenção.
Naquele 29 de janeiro, as portas da mostra se preparavam para fechar. As obras voltariam às coleções públicas e particulares que as emprestaram, algumas vindas de instituições e acervos do Brasil e de outros países latino-americanos, como Argentina e Uruguai.
Mas a arte tem seus próprios meios de contrariar calendários. Uma exposição termina, os quadros deixam as paredes, os visitantes seguem para a rua. ainda assim, alguma coisa permanece. Talvez uma cor que nos acompanha no caminho de volta, um rosto que insiste na memória ou a descoberta de que a história de um país também pode ser contada por seus pintores.
Eis a graça da arte: ela sabe a hora de sair de cena, mas não obedece à ordem de desaparecer.
No fim, a Pinacoteca fechava uma exposição. Di Cavalcanti, esse brasileiro de tintas inquietas, continuava abrindo janelas.






