bom dia! a felicidade também se serve numa xícara de café

bom dia! a felicidade também se serve numa xícara de café

há quem diga que o dia começa quando o sol aparece. Outros juram que é quando o despertador toca. Eu, particularmente, desconfio das duas versões. Para mim, o dia só começa mesmo quando alguém diz um Bom Dia de verdade e o cheiro de café fresco resolve passear pela casa. O resto é apenas o mundo cumprindo expediente.

um bom dia, um café e a vida que segue

Existe coisas que o brasileiro não explica. Apenas sente. A saudade é uma delas. a mania de perguntar se a pessoa já comeu é outra. E existe, ainda, essa relação quase amorosa entre o Bom Dia e uma xícara de café.

Não importa se a noite foi maldormida, se a conta venceu ontem ou se o noticiário resolveu anunciar, antes das sete, que o mundo continua precisando de conserto. Basta o cheiro de café recém-passado atravessar a cozinha para que a esperança, essa criatura teimosa, encontre uma desculpa para continuar.

O café, no Brasil, não é apenas uma bebida. É uma espécie de diplomacia doméstica.

 — aceita um cafezinho?

A pergunta parece simples, mas carrega uma porção de significados. Pode ser um convite para conversar, uma tentativa de reconciliação, uma demonstração de carinho ou apenas uma maneira educada de dizer que a visita pode ficar mais um pouquinho.

E, convenhamos, há assuntos que só encontram coragem depois do segundo gole.

quando o café resolveu dar nome à manhã

A história dessa intimidade vem de longe.

Houve um tempo em que a primeira refeição do dia era chamada de almoço. As palavras, como as pessoas, mudam de hábitos conforme a vida passa. E o café, que ganhou enorme importância econômica e social no Brasil, especialmente a partir do século XIX, acabou emprestando seu nome à refeição matinal.

Curioso é que a bebida conquistou tamanho prestígio que nem precisa estar presente para ser homenageada.

Há quem tome leite, suco, vitamina ou simplesmente saia de casa sem engolir coisa alguma. Ainda assim, quando perguntamos se a pessoa já tomou café da manhã, ninguém estranha.

O café virou dono do horário.

E não deixa de ser engraçado que, num país onde tanta gente disputa espaço, uma simples bebida tenha conseguido batizar uma refeição inteira sem precisar fazer campanha eleitoral.

a hospitalidade cabe numa xícara

Quem nasceu ou viveu no interior sabe que café não se oferece apenas por educação. oferece-se por princípio.

Em certas casas mineiras, por exemplo, a visita mal atravessa a porta e alguém já está colocando água para ferver.

Não se pergunta primeiro se a pessoa está com fome, se tem pressa ou se pretende ficar. O café vem antes. As explicações, depois.

E, se a visita recusa, começa uma negociação que faria inveja a qualquer diplomata.

— só um pouquinho, então.

Esse pouquinho, naturalmente, vem acompanhado de pão de queijo, bolo de fubá ou alguma quitanda que apareceu misteriosamente sobre a mesa.

Porque, para muita gente, oferecer café sem alguma coisa para acompanhar é quase uma falta de consideração.

O brasileiro aprendeu a transformar uma bebida em gesto. E um gesto em afeto.

Talvez por isso a expressão vamos tomar um café qualquer dia desses seja tão bonita e, ao mesmo tempo, tão perigosa. Bonita porque promete um encontro. Perigosa porque, muitas vezes, esse dia nunca chega.

A vida anda cheia de cafés prometidos e conversas adiadas.

o mundo também acorda com cheiro de café

Mas essa paixão não é exclusividade nossa.

Na Itália, o buongiorno frequentemente encontra seu companheiro num expresso servido no balcão. O italiano chega, cumprimenta, toma seu café e segue. Tudo tão rápido que, para um mineiro acostumado a prosear, parece até desperdício de oportunidade.

Na Colômbia, o tinto, aquele café preto servido em pequenas xícaras, também representa acolhimento. É uma maneira de receber alguém, iniciar uma conversa e lembrar que a hospitalidade não precisa de grandes cerimônias.

Na Etiópia, considerada o berço do café, a bebida participa de um ritual que exige tempo, atenção e convivência. Os grãos são torrados, preparados e compartilhados numa cerimônia em que o encontro importa tanto quanto aquilo que se bebe.

Na Turquia, o café carrega séculos de tradição. Seu preparo, sua apresentação e até a leitura simbólica da borra fazem parte de uma cultura em que a bebida representa amizade, respeito e convivência.

Já na França, o café acompanha o despertar das cidades. Nas mesas dos bistrôs, entre jornais, croissants e conversas discretas, a manhã vai tomando forma.

Cada povo inventou sua maneira de conversar com o dia.

Uns bebem depressa. Outros fazem cerimônia. Há quem acrescente leite, açúcar, especiarias ou simplesmente prefira o café puro, sem disfarces.

Mas existe algo que atravessa fronteiras, idiomas e costumes: uma xícara de café pode ser uma maneira delicada de dizer que a presença do outro importa.

o café não resolve a vida. mas ajuda a entendê-la.

É claro que o café não paga contas, não cura desilusões e tampouco melhora o caráter de quem acorda disposto a infernizar a existência alheia.

Se melhorasse, bastaria distribuir algumas toneladas de café pelo Congresso Nacional e o Brasil amanheceria resolvido.

Infelizmente, não funciona assim.

Mas existe uma pequena sabedoria nesse hábito de interromper a pressa para beber alguma coisa quente.

O café nos obriga, ainda que por poucos minutos, a reconhecer que estamos vivos.

E estar vivo, apesar dos contratempos, continua sendo uma oportunidade extraordinária.

Há manhãs em que tudo parece conspirar contra nós. O relógio corre, o trânsito empaca, o telefone toca e a paciência resolve tirar férias sem avisar.

Nessas horas, uma xícara de café pode não mudar o rumo dos acontecimentos, mas muda a maneira como atravessamos alguns deles.

Não é pouca coisa.

Afinal, a vida raramente nos oferece soluções prontas. na maior parte do tempo, entrega ingredientes e espera que a gente descubra a receita.

a felicidade também precisa ser cultivada

Penso que o verdadeiro encanto do café não está propriamente nos grãos, na torra ou no aroma que invade a casa.

Está no que acontece ao redor dele.

Na mãe que acorda antes dos filhos e deixa a mesa preparada. No casal que divide o silêncio sem precisar preenchê-lo com palavras. No amigo que aparece sem avisar. No vizinho que bate à porta para pedir açúcar e acaba ficando meia hora.

Está, sobretudo, na capacidade de transformar o comum em alguma coisa que mereça ser lembrada.

Porque a felicidade, essa danada, tem o péssimo hábito de aparecer disfarçada de coisa pequena.

Às vezes, chega numa gargalhada inesperada. Noutras, no abraço de quem não víamos havia muito tempo. E há dias em que se apresenta numa xícara lascada, sobre uma mesa antiga, enquanto a manhã entra devagar pela janela.

A gente passa boa parte da existência esperando acontecimentos grandiosos, como se a alegria precisasse de anúncio, cerimônia e banda de música.

E ela, sem fazer alarde, está ali. No café que alguém preparou para nós. No bom dia que recebemos sem pedir. Na conversa que não precisava ter hora para terminar.

Talvez seja por isso que eu goste tanto dessa combinação brasileira de palavras e gestos.

bom dia e café.

Um cumprimento e uma oferta.

Um desejo e uma partilha.

Duas maneiras singelas de lembrar que ninguém deveria atravessar a vida sem, de vez em quando, encontrar uma mesa onde pudesse descansar suas preocupações.

E, pensando bem, não seria nada mau se aprendêssemos a cultivar os dias com o mesmo cuidado de quem cultiva um cafezal.

Preparar a terra, respeitar o tempo, enfrentar as intempéries e compreender que nenhuma colheita acontece apenas porque desejamos.

É preciso plantar.

É preciso cuidar.

É preciso, sobretudo, não perder a delicadeza de oferecer ao outro um pouco daquilo que conseguimos colher.

Porque, no fim das contas, o café esfria, a manhã passa e a vida segue seu caminho, com ou sem nossa autorização.

Mas o carinho que deixamos na vida de alguém pode permanecer aquecido por muitos anos.

e talvez seja essa a única felicidade que vale a pena: a que a gente planta.

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